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sábado, 19 de novembro de 2011

Decifra-me ou te devoro - Ruy Ohtake

Desde o início de 2000, a construção de um volume inusitado chamava a atenção de quem transitava pela av. Brigadeiro Luiz Antonio, nas imediações do parque Ibirapuera, em São Paulo. A partir de setembro de 2002, o mistério revelou-se no Unique, hotel design projetado por Ruy Ohtake. O edifício reúne elementos que consagraram o arquiteto como um dos expoentes da arquitetura brasileira - como curvas
e empenas de concreto - e inovações - como a caixilharia e o revestimento de cobre.
Ficou curioso? Então, veja as fotos e conheça o hotel.


A forma -  inicio
O hotel fica em um corredor comercial, em meio a arborizada zona residencial, com gabarito máximo de 25 metros. É uma espécie de hotel design, com espaços diferenciados e atendimento personalizado.

Porém, ao contrário da adaptação de edifícios
feita mundo afora pela dupla Ian Schrager (empresário) e Philippe Starck (designer), o Unique foi inteiramente construído. Devido à sofisticação pretendida, o projeto atendeu a um pré-requisito que é um desafio e, ao mesmo tempo, o anseio de qualquer profissional do traço: ele teria, a todo custo, que destacar-se pela arquitetura. Dito e feito: ninguém fica indiferente ao volume criado.

Ohtake, ciente do risco, desafia e postula
: “Inicia-se um projeto pela forma”. O corpo principal do hotel, que abriga os apartamentos, possui a forma de arco invertido, cuja associação imediata pode ser um barco. Ele está suspenso do solo e é revestido por placas de cobre com aberturas circulares.

A face inferior possui acabamento em
maçaranduba, em réguas de 30 cm de largura. Nas pontas, ele está apoiado por empenas de concreto.

Sob o arco
- simétrico, puro e preciso - há outro volume, de vidro e concreto - assimétrico, irregular e impreciso -, destinado ao lobby.

Frente à "esfinge"
, essa rápida leitura é insuficiente para desvendar as intenções do autor. O volume em arco parece, à primeira vista, apoiar-se somente nas extremidades, uma vez que sob ele há, aparentemente, um bloco de vidro. Se assim fosse, a estrutura seria um pórtico incrível, em que a forma da viga-volume lembraria o diagrama das forças da carga estrutural.

Mas, além das empenas
, oito pilares dentro do volume de vidro sustentam o de cobre. Fica claro que a intenção formal sobrepõe-se à expressão estrutural. Formado entre a escola paulista e a carioca, com o passar do tempo, Ohtake afastou-se do pragmatismo dos paulistas, que, entre outras coisas, pregavam a rígida “verdade estrutural”.

Ao preferir a leveza ao peso
e a forma à “verdade”, o arquiteto pende para Niemeyer, que também inicia o desenho dessa maneira.
Na obra de Ohtake, há uma busca infatigável por volumes inusitados, que nascem de gestos fortes.

Porém, comparado ao mestre carioca, o paulista revela
cuidado maior no detalhamento, no uso de materiais e nas cores. No Unique, o revestimento refinado de cobre divide espaço com o concreto bruto. Assim, o arquiteto segue trajetória própria, misturando técnica e intuição, cores e curvas, tecnologia e a tradição da arquitetura brasileira.

Por meio de leitura particular das influências locais, Ohtake procura dar
continuidade ao modernismo tupiniquim, revelando uma possível face contemporânea. As duas empenas de concreto que sustentam parcialmente o volume do arco invertido possuem 50 cm de espessura.
Chanfradas nas quinas, elas são arrematadas por uma beirada de 2 cm de espessura e 25 m de altura - uma proeza construtiva. Essas empenas são resquícios da obra inicial de Ohtake, que tão bem soube interpretar o lote urbano, utilizando-as junto das divisas laterais.

No caso do Unique,
elas definem a tipologia pavilhonar, que, simetricamente, busca leveza nas extremidades e peso no centro, dialogando com outro projeto recente do arquiteto, a torre Pedroso de Moraes, edifício baixo que integra o conjunto Ohtake Cultural.

Jardins de pedras na área de acesso
 
Volume de vidro abriga o lobby. Pano de concreto retorcido
"à Frank Gehry" abraça o espaço do bar
 
Vista noturna do bar
 
Empena de concreto: um tecido que pende da nave


O programa do hotel foi disposto de forma simples
e inteligente, para encaixar-se no volume: a área de eventos está completamente enterrada e, assim, a porção aflorada (lobby e apartamentos) possui grande recuo, com 35 m, ocupado por um jardim de arenito, pedra também utilizada na área pavimentada com mosaico português. Esse jardim de pedras, imaginado pelo arquiteto e criado por Gilberto Elkis, torna-se um mural quando visto do alto.

O edifício tem dois acessos principais
, implantados em cada uma das extremidades, junto das empenas de concreto, sob o maior pé-direito do arco invertido. Ali, eles se comportam como dois grandes átrios externos. “É um projeto urbano: só uma grande cidade poderia ter um espaço como este”, diz Ohtake, apontando para os vazios do volume.

O primeiro acesso, à direita de quem chega, abre-se para o lobby do hotel.
A porta de entrada, com 7,5 m de altura, é feita em fibra de carbono rasgada por um visor irregular de vidro.

A intenção de transparência e definição volumétrica é acentuada pela continuidade, no interior, do forro de madeira que reveste a face inferior do volume dos apartamentos.


A pureza do arco
revestido de cobre e madeira contrasta com os diversos volumes, de concreto e vidro, que compõem o térreo.
O primeiro deles, em concreto aparente com pigmentação preta, será utilizado para exposições ou uma pequena loja de design. Voltada para a face sul, a porção frontal que está fora da projeção do arco possui cobertura e fechamento com vidro, cuja caixilharia é composta por estrutura metálica tensionada. Nesse trecho, o caixilho é interceptado por quatro painéis de concreto (recurso bastante recorrente na obra de Ohtake) para dar, segundo o arquiteto, “escala humana” à monumentalidade do lobby.

Na porção próxima ao acesso
do local de eventos, uma grande parede de concreto se contorce, como uma folha virada, à la Frank Gehry. Os interiores têm a configuração de um tradicional lobby de hotel com bar anexo.

Mas, não existe recepção forma
l, e os funcionários (que circulam pelo espaço) utilizam computadores de mão para fazer reservas e fechar contas, entre outros serviços.

O segundo acesso
, na extremidade oposta ao primeiro, é utilizado como entrada do centro do eventos, ao qual se interliga por escadas rolantes.
O interior desse espaço enterrado também foi desenhado por Ohtake. As salas são circundadas, de um lado, por um grande lobby e, do outro, por corredores de serviço e pela cozinha.

A sala maior
(com 1.200 m2 e forro com “nuvens” de MDF) é central e pode ser subdividida em cinco.
O setor possui ainda quatro salas menores, com áreas que variam de 45 m2 a 55 m2.

Porta de acesso: 7,5 m de altura, fabricada em fibrocarbono
 
Área cênica: painéis refletores vermelhos "tingem o ambiente"
 
Área de estar no lobby:
iluminação com painéis refletores
 
Lobby: ao fundo uma biblioteca sobre arte, design e arquitetura
Bar do lobby: manto de concreto preto.
Cobertura e vedação em vidro sobre caixilharia metálica
 
Vista geral do lobby

 O volume principal possui seis pavimentos que abrigam 95 apartamentos, com áreas entre 36 m2 e 250 m2. À moda dos tradicionais átrios de hotéis, há um vazio que atravessa todos os andares.

Um espelho d´água
com fundo de vidro cobre esse grande pé-direito, permitindo a entrada de luz natural. Por causa da geometria desse bloco, cada pavimento possui dimensão distinta, mas a planta-tipo, da qual derivaram todas as outras, tem matriz que se assemelha ao meio círculo do desenho externo. Esse módulo básico é composto por quatro apartamentos, de dois tipos diferentes.

O núcleo que agrega circulação vertical e serviços
do pavimento-tipo também ocupa um módulo semelhante ao dos apartamentos.

Espelhado e deslocado
, esse módulo resultou em uma circulação sinuosa, que foge ao tradicional corredor central, um espaço inesperado que permite a entrada de luz natural de ambos os lados.

Nas extremidades
, os apartamentos insinuam a curva do volume externo, o que resulta em uma espécie de fundo infinito de estúdio de fotografia, como se o piso encontrasse o forro. Essas unidades são maiores e possuem janelas para ambos os lados.

As janelas
dos apartamentos são circulares, com diâmetro de 1,8 m. Se o formato do volume lembra um barco, as aberturas são as escotilhas. Elas abrem com o auxílio de um mancal especialmente desenhado para não haver trava central.

Com esse desenho, simples e sofisticado, Ohtake criou um
enquadramento circular da paisagem paulistana que já nasce clássico, assim como o que, em outra medida, Lina Bo Bardi propôs para o Sesc Pompéia.

O vidro está alinhado por fora
, na mesma face do revestimento de cobre, que possui três tonalidades diferentes.A curva dessa fachada, na interface com a madeira, é arrematada por uma calha embutida, também de cobre, cuja função é escoar águas pluviais que escorrem pela fachada.

A cobertura é ocupada por restaurante
(com acesso independente por elevador externo), bar e piscina, com 25 m de extensão. Um guarda-corpo de vidro protege o visitante. Os vestiários da piscina ficam localizados em um piso superior, no mesmo volume da caixa-d´água.

Com o Unique
, Ohtake agracia a cidade com uma nau de cobre, concreto e madeira que parece navegar sobre o jardim de pedra.

Os três elementos mais fortes do projeto
são emblemáticos para o entendimento da obra.

Primeiro, a
empena de concreto, das épicas casas de Ohtake e da escola paulista. Em segundo lugar, a madeira de espécie nacional, que, desenhando um arco, remete à sinuosidade que destacou o arquiteto no contexto local. E, por fim, o cobre, que representa a tecnologia construtiva.

O encontro entre estes três elementos
, no alto do arco, é incrivelmente preciso. Como diz o enigmático Ohtake, “é um ponto”. Decifrou ou foi devorado?
 
Tevê com tela de plasma e mobiliário exclusivo
 
 
Apartamento: fundo inclinado e luminárias especiais
 
Porta basculante une banho e estar


Via ProjetoDesign

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